Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
domingo, março 06, 2005
INSTANTÂNEOS apontamentos (5 de Março de 2005)
-Se a Oficina do Livro alguma vez me tentar contratar, não será coisa boa. Ganho montes de dinheiro, torno-me conhecido, mas os meus livros seriam controlados, e é certo que a qualidade decairia de livro para livro.
-A chatice primordial das viagens é, para mim, a estadia. Nestes tempos tenho planeado uma viagem a sós, saco pequeno com a roupa essencial, um bloco, uma caneta e um livro. Repudio a ideia de ficar em hotéis, e pousadas da juventude, sozinho, começam a parecer-me muito desagradáveis. Quando as coisas correm mal e se está sozinho, tudo parece pior. A minha viagem óptima seria ficando em casa de amigos, pelo sofá ou mesmo pelo chão. Tenho de equacionar as minhas hipóteses.
-A Inês Pedrosa, uma das recentes escritoras que captaram a minha atenção, não cumpriu nada do que esperava dela. Isto não é demérito dela; eu é que terei vislumbrado nela algo que lá não estava.
O texto de Inês Pedrosa, editado na Única do último sábado, sobre D. Quixote (que a autora usa apenas como desculpa para o tema a que se propõe), peca por ignorância. Não estou a chamar ignorante à senhora, atenção: apenas digo que, ao pegar na temática quixotesca como ela o faz, deixa no ar a ideia de que não leu o livro. Quase ninguém o leu, afinal. Eu já ando com ele desde Setembro, e é francamente interminável.
Inês Pedrosa, para começar, refere a imagem da 'batalha' do "Cavaleiro da Triste Figura" contra os moinhos de vento, os seus imaginados inimigos gigantes. Ora, esta é a imagem com mais força do livro (da parte que li, pelo menos), mas é de somenos importância na estrutura total da obra. Há pouco tempo li da boca dum especialista em Cervantes que a maior parte das pessoas nunca tinha lido o D. Quixote, e por isso referem tanto o episódio dos moinhos. Obviamente que quem tivesse lido a obra não referiria apenas esse episódio.
Inês Pedrosa continua, dizendo que D. Quixote “tem uma estátua no largo da sua terra, El Toboso”. Quem era de Toboso era a sua amada, Dona Dulcineia del Toboso, e não o nosso cavaleiro, que vinha de “…un lugar de la Mancha, de cuyo nombre nom quiero acordarme”. Ainda há mais: Inês Pedrosa desenvolve, ao longo do texto, uma metáfora a partir de D. Quixote e seu escudeiro, Sancho Panza, e aplica-a à Europa e aos Estados Unidos. As metáforas, como dizia a outra, são como as vaginas, cada uma tem a sua e dá-a a quem o entender. A metáfora que Inês Pedrosa ‘tentou’ congeminar falha logo de início, sem garantir mais que alguns milésimos de segundo de existência. O grande problema aqui foi ter trocado os nomes. Havendo uma Europa, essa será Sancho Panza. Ponderado, seguidor aqui e céptico fala-nas-costas acolá, e que se mete com o seu amo em lutas imaginárias pelos valores da “andante caballería” (como o envolvimento da Europa com os Estados Unidos no Iraque). Inevitavelmente é D. Quixote que dá o corpo ao manifesto, e que leva mais no pêlo (como os Estados Unidos, que já perderam mais de 1.500 homens no Iraque). Sancho (a Europa), que apoia mas não apoia mas acaba por estar envolvido, acaba por levar porrada também. Os Estados Unidos são claramente D. Quixote, que inventa coisas que não está a ver, e que se guia por ideias e métodos desajustados no tempo e no espaço. Gostaram da metáfora, meninos? A da Inês Pedrosa é quase igual, mas exactamente ao contrário. Brilhante, não?