Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
domingo, março 27, 2005
FICÇÕES chuva dissolvente (apontamentos de lucidez)
A chuva dissolveu os pensamentos e levou-os corrente abaixo. Bonito! Na margem eu vejo-os a distanciarem-se e digo-lhes adeus. Bonito, hem? Eu vejo-os a distanciarem-se, já passaram dois dias desde que a chuva veio. Mas eu vejo-os! Eu vejo-os! Não é possível!!! Como pode. Eles vão, a introspecção continua. A introspecção é ver-se fora de si próprio como se fosse um espectador, como se habitasse fora do corpo, como se fosse um amigo, uma pessoa por quem passo na rua. Mas eu sou um ser sólido, o corpo prende a minha percepção dentro do corpo. Mas não prende. O meu, não sei... Enquanto a chuva durar, será que eu vou ver os meus pensamentos a irem? Viver, sentir, e saber que estou a viver e sentir? Qual é o sentido? Viver e sentir, sim, Viver, sentir e saber que se vive e se sente? Assim não sente, assim não se vive, assim só se pensa. E pensar prende o viver e o sentir, influencia, difere, discorda. Não há vida sem o pensar, seja a mínima ameba pré-histórica a aperceber-se que comendo, sobrevive, mas sem ter consciência disso (ou sequer ter instrumentos para fazer essa dedução ou lógica para o fazer) ou um ser humano a descobrir que utilizando uma pedra contra a outra produz fogo, Ele não tem consciência disso, porque a vida não é isso. A chuva leva-os para longe. Malditos, como estragaram a vida (a minha). Nada, nada. Ou tudo? Dissolvem os pensamentos, não os diferenciando, Ou eu é que escolhi os que estavam a mais, e deixei os piores, os mais sombrios. Será a chuva selectiva, uma catarse, ou uma cirurgia feita a mim próprio? Um trovão provocado (premeditado até), o toque dum deus superior, cansado de ver um mortal perocupado com problemas que deveriam ser os seus? A chuva que vai e vem, ciclo hídrico, leva e trás a água que pode não ser a mesma mas continua a ser água. Não parará este ciclo, quando a chuva parar, o deserto que se formará não causará, com a água que ficou depositada no sub-solo, cactos onde me picarei? :) :)) :) O ciclo é vicioso. A merda é igual, o cheiro é que é diferente. Puro e duro. É a realidade. A chuva, quando voltar, trará os pensamentos de novo. A chuva, que agora surgira como uma libertação, uma revolução há muito esperada, será um mal do qual me vou precaver. Irei comprar guarda-chuvas, gorros, casacos. Irei nunca sair de casa, com medo da chuva. Esta chuva, existirá. Será que eu a imaginei. Eu quereria esta chuva. Eu previ esta chuva. Eu queria tanto que chovesse. Constipei-me com a merda da chuva. Seria uma premonição do que estava a acontecer, como um aviso a mim próprio. Já sei. Eu não quero esta revolução. Mas nunca me senti tão bem. A chuva cola a roupa ao corpo, quase como um controlo para o corpo não escapar. Dá-lhe uma constipação. A merda da chuva, quer-me dar alento. Mas o corpo não deixa. E eu penso nisto. Mas a chuva não dissolve esse pensamento.