Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
-Há aqueles gajos que, em duas frases, citam meia obra de Faulkner, Kant e Camus. E aí sentimo-nos irremediavelmente ignorantes.
-Gosto da impermanência e da constância. Das duas, com o mesmo peso. Eu sei. Incoerência. Não gosto de estar muito tempo no mesmo sítio, mas quando o faço habituo-me à fixidez dos hábitos. Assim, sair é uma quebra do quotidiano, por isso evito-o.
-Vou acabar o móvel agora. As conferências podem esperar. As instruções parecem fáceis. Os encaixes funcionam, a chave roda sem dificuldade. Prontos, já de pé. Só me faltam os pés, feitos de rodas. Espera, deste lado não é. Será... Merda, montei tudo ao contrário! Não posso crer. O telefone toca. 'Sim, Alice, olá', a bateria vai-se. Ponho a carregar. 'Sim, Alice, olá' '...' 'Sim, desculpa, esqueci-me de ir à biblioteca' '...' ' Sim, vou já a seguir, até me fica a caminho' '...' 'Nah, eu tenho amigos na biblioteca, não deve haver grande problema' '...' 'Ok, xauzinho.' Acabo o móvel, vou à biblioteca e, se sobrar tempo, vou à mesa redonda. Na volta vai ser uma seca como hoje de manhã. Ora isto entra aqui, isto tem de sair. Fodasse, como é que fui montar isto ao contrário? Deixa-me tirar isto... Que horas serão? quinze e vinte e cinco. Ok, vou chegar atrasadíssimo. Péra, hoje não era às três? Shit shit. E não era o Veríssimo? Ai cá vou eu! Cheguei estava já ele a falar.
-Ok, eu nunca vou ler todos os livros que existem. Decidi agora.
-Eu tenho tanto estilo. Escrevo Veríssimo e Agustina ao invés de Luís Fernando Veríssimo e Agustina Bessa-Luís. Mas não o digo, senão ninguém me perceberia. Mas teria grande estilo. Tenho de mudar de amigos.
-Ler é mesmo coisa de mulheres. Sim, não é vergonha nenhuma. Quando referi este facto estatístico no fórum do bookcrossing, todas me disseram que era mentira (e eu um idiota preconceituoso).
-O Mário Cláudio é minúsculo. É parecido com o homem-sapinho que está cá todos os dias. Tira fotografias e parece um sapo. Não faz muito mais. Afinal não é parecido com o Mário Cláudio, o Mário Cláudio é famoso.
-As escritoras latino-americanas que cá vêm combatem o estereótipo - parecem todas frígidas e distantes - e parecem estranhar o contacto social. Qué raro. Merda, esta escritora é galega. Lá se foi a teoria.
-O Mário Cláudio coincide com o retrato da entrevista - não pára de ler.
-Detesto pessoas que passam metade do tempo a pedir desculpa por estarem a falar. Só talvez o Marmelo, mas esse tem piada.
-O Mário Cláudio ouviu-me os pensamentos, é só mulheres.
-Tantos anos a sentar-me mal, e agora só me sinto bem mal sentado.
-Há uma menina bonita que aparece sempre fora de horas e me captura a atenção, quando no meu ângulo de visão. Não é magra, e esconde isso com roupas largas, sempre lindíssimas, de corte oriental. Parece que nem existo, os nossos olhares nunca se cruzam. Já sei, é jornalista. Por isso chega sempre atrasada e se senta na primeira fila.
-O contacto dos olhos não é nada, só com as línguas se pode amar.
-O Diogo Dória é alto, porra. Parece de outros tempos, não pela estatura mas pelo ar. Um ar trágico, de morte. Seria a minha imagem de coveiro, se não os imaginasse sempre baixos.
-O Diogo Dória parece uma pessoa bastante interessante. Mórbido, mas interessante. Fazia um filme só com ele. Pensa que fosse um filme português. Seria uma merda. É isso! Vou fazer um filme francês com o Diogo Dória.
-Tem piada. Eu, a escrever sobre escritores. Na realidade, não tem piada alguma.
-Esse Ondjaki é uma figura peculiar. Peculiar no bom sentido. Parece um dread erudito. Um poeta vestido de Pull & Bear. Pull & Bear. Roupa espanhola com nome inglês. Parece o Ondjaki. Tiques europeus, coração africano.
-É boa, ela. Parece. Tenta encontrar o Diogo Dória, talvez pensando no belo filme francês que faria com ele. Estas duas mais perto de mim também são estimulantes para os sentidos. Às vezes ignoramos quem temos mais próximo. O que é visual tem de se confrontar com o invisual. Afinal, o visual não será tão importante.
-Esta ao meu lado é a Pépi. Não será ela, concerteza.
-Não me posso apaixonar pelo que não conheço. Não apaixonar, pelo menos.
-Ela finalmente entrou em contacto com o Diogo Dória. Já está.