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domingo, dezembro 19, 2004
OBSESSÕES Álvaro Domingues
Espero que o nome vos seja familiar, senão eu explico, não há problema. Eu não gosto de criar problemas, principalmente aos meus leitores. Gosto muito de vocês, de todos vocês, mesmo aquele grupo de surdos da Lourinhã que me lê sempre. Obrigado pelo apoio, ouviram?
Voltemos ao Álvaro Domingues, AD. Em termos 'profissionais' ele é geográfo a puxar para o urbanista, cínico e pessimista, dá aulas na FAUP e é do Porto. Já estive em várias conferências em que ele participava. É sempre cáustico o suficiente, e critica todas as instituições que existem em Portugal (estas pessoas, os cínicos profissionais, são também necessários. Irritam todagente, mas fazem-nos despertar de certas ilusões que possamos ter. Outro exemplo de cínico profissional é o Vasco Pulido Valente). Quando li uma longa entrevista ao AD, ele criticava o Metro do Porto. Não a ideia que lhe deu vida, mas a forma politizada como tem sido conduzido parte do processo. Para chegarmos a esta conclusão o génio é dispensável, basta ler os jornais. É óbvio que o Rui Rio (quem manda na Metro do Porto neste momento) quer fazer o metro na Avenida da Boavista antes das eleições apenas para ganhar votos, apesar de este percurso nem estar nos planos da Metro do Porto.
AD não fica por aqui, refere também o exagero do aproveitamento das linhas da CP existentes. Desde o princípio considerei esta política da Metro do Porto como razoável; aproveitando os canais existentes poderia-se melhorar imenso os custos de empreitada. Mas esta política teve alguns precalços que lhe retiravam, à partida, a sua validade. Já há alguns anos que a linha da Póvoa não funciona, por o seu traçado estar a ser reabilitado e alargado para o metro, mas houve pelo menos dois anos em que já não havia comboio e as obras do metro ainda não tinham arrancado. Ou seja, já há varios anos que os cidadãos da Póvoa e Vila do Conde não têm comboio, e em pelo menos dois desses anos esta paragem não era necessária. A utilização do canal ferroviário anterior é também dúbia. Não há qualquer certeza que as zonas que ele serve são as mais populosas, nem existem considerações urbanísticas nesta reutilização, pois, salvo raras excepções, o traçado é o mesmo. É óbvio que o traçado do comboio não foi feito seguindo qualquer plano urbanístico, pois era um serviço de ligação entre cidades, e não um meio de integração urbana. Existe também a questão da 'facilidade' em renovar a linha existente que passa a ser dupla. É toda alargada, havendo centenas de terrenos que têm de ser expropriados, muita da linha é enterrada, os muros de sustentação têm todos de ser refeitos, etc. Fazendo as contas, uma linha nova não era tão mal. E evitavam-se os constrangimentos aos utentes da linha da Póvoa, que era das mais lucrativas do país. O canal ferroviário poderia ser reutilizado para outras coisas, como ciclovias.
Mas assumindo-se esta solução da Metro do Porto, consegue-se perceber outras das opções. O veículo utilizado é óptimo para o conceito elaborado, o de um metro multi-funções. Anda à superfície e sob esta, consegue incorporar-se em meios urbanos sem grande dificuldade (como é o caso de Matosinhos, onde é um autêntico eléctrico). Apesar de não ser um veículo muito veloz, consegue cumprir. O facto de ser multi-funções permite-lhe ser um modelo único para todas as situações, o que permite uma poupança enorme. Mas isto apenas funcionará se for devidamente complementado pelo veículo suburbano que fará as ligações directas na linha da Póvoa. Este veículo permitirá fazer a viagem da Póvoa ao centro do Porto em meia hora, um tempo bastante razoável (o anterior comboio fazia as ligações Póvoa-Porto em 55 minutos, mas o metro normal demorará mais de uma hora). Foi veiculado na comunicação social que haverá a cada meia-hora uma ligação normal e meia-hora depois uma directa. Este seria um cenário agradável, mas parece-me mais desinformção que outra coisa. Antigamente, quando os horários dos comboios eram mais simples mas menos realistas, isto poderia fazer sentido. Vejamos o exemplo do horário dos transportes alternativos, no qual muito provavelmente se irão basear os horários do metro. Existem ligações directas apenas nas horas de ponta, o que faria sentido se houvessem outras ligações directas espalhadas pelo horário. O que existem são as ligações semi-directas, que fazem o percurso até ao Porto também pela auto-estrada, mas apenas depois de Vila do Conde. Acaba por ser também uma ligação rápida, que será proporcionalmente ainda mais rápida quando for processada pelo metro. Isto porque a parte do percurso pela nacional atrasa-se um pouco por causa do trânsito. Mas mesmo que haja uma transposição directa do horário dos autocarros para o do metro, existem ainda largos períodos do dia sem ligações directas (vindo do Porto, entre as 9:28 e as 16:55, as ligações são todas normais). Esperemos que, segundo o prometido, haja uma reformulação dos horários aquando da abertura do metro até Pedras Rubras.
Acabei por falar pouco do Álvaro Domingues. Ia-me esquecendo de dizer que ele é dos melhores cronistas que a nossa imprensa tem. Talvez mesmo o mais imaginativo, e certamente o mais 'escritor'. E era isso. Bom Domingo.