Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
quinta-feira, novembro 18, 2004
INSTANTÂNEOS a verborreia nocturna
Há uns segundos estava sentado na cama, a forçar-me a ver o mapa da Arménia pela trigésima vez, com medo de me levantar para escrever. Antes, na sala a ler, vinham-me inúmeras ideias de textos que tinha de escrever mas que não podia porque o computador estava longe e desligado. Agora que aqui estou não sei o que escrever. Os melhores raciocínios vêm-nos quando não estamos atados por qualquer tipo de cordas burocráticas, quando a nossa mente age por si e não se deixa travar pela realidade. Os criadores todos buscam esses momentos de omnipotência, em que ascendem mais rápido do que descem e deslizam pelas ideias e as tocam, em vez de lhes dizerem adeus ao longe. Nestes momentos a verborreia invade-me, por eu a estar a forçar, mas mais porque tem de ser. Tem de sair, os meus dedos têm de ferir as teclas enquanto eu penso. São poucos os momentos em que estabeleço pontes entre a minha mente e o texto aberto.
Os meus sentimentos estão em pedaços, enquanto que a minha mente continua completa e íntegra, tentando tornar a minha vida normal e os meus actos razoáveis. O dia-a-dia é difícil de enfrentar, é árduo ver a hipocrisia de todos, vê-los nas suas vidas quase perfeitas, nas suas certezas estranhas que os põe insensíveis à vida, às incríveis manifestações de magnificência com que nos cruzamos a cada esquina. Consigo ficar horas olhando um pôr-do-sol com um número suficientes de tons para preencher uma existência, e olho para as pessoas (se é que pessoas é um termo exacto, chamaria-lhes mais autómatos personalizados) que olham para os seus telemóveis esperando que eles se manifestem, enquanto que bastava-lhes levantar os olhos e ver que belo é tudo! Tudo. E enquanto que a vida é cá fora, tentam procurá-la dentro dos telemóveis, dos computadores, das televisões. Eu não sou exemplo, mais valia calar-me. Mas é o que sinto.
Lia agora na National Geographic os planos da Arménia de se tornar a nova Singapura, apostando nas novas tecnologias. A Arménia, ou como eles lhe chamam, Hayastan, é um destroço dum país. Dum império incrível que ia da Palestina ao Mar Cáspio, passaram na actualidade a uma tripa insignificante entalada entre a gigante Turquia e o agressivo Azerbeijão. O seu grande símbolo, o monte Ararat, pertence aos turcos. Parte da sua herança religiosa está em território Azeri (no terrível Nagorno-Karabakh), quatro dos sete milhões de Arménios não reside no território, mas estão espalhados pelo mundo. Muitos são bem sucedidos, é só procurar os apelidos acabados em –ian. Calouste Gulbenkian, os System of a Down são todos descendentes de Arménios, no ténis existe o David Nalbandian. No início do século XX eram 2 milhões, mas os turcos, infames inventores do genocídio moderno, deixaram lá uns escassos 100 mil. Terão morto, ao todo, entre 600 mil e 1.5 milhões de Arménios. Entre inúmeras outras catástrofes avulsas, os Arménios não deveriam existir. Mas ainda lá estão, e parece que para ficar, com os pés bem assentes nas ruínas duma civilização.
Enquanto que parece que a eles lhes falta tudo, penso na nossa ignomínia situação de sermos os últimos numa Europa onde já fomos o exemplo, nessa época cada vez mais distante dos Descobrimentos. O que nos falta? Uma catástrofe? Talvez. Se os deuses decidissem castigar as nossas cabeças com desolação e chuvas e terramotos e vulcões que abrissem a terra e nos matassem a quase todos, talvez assim déssemos um passo em frente. Agora na União Europeia, mais do nunca, podemos ser apenas medíocres e continuarmos a ser sustentados. Não temos nada que nos agarre uns aos outros e ao país. A nacionalidade não é nada hoje, nada significa. Só dou graças por não ser espanhol neste momento, mas não dou graças por muito mais. Não sinto mais relação pelas paisagens ondulantes dos montes alentejanos do que pelos bosques calados da Catalunha, por os primeiros serem do ‘meu país’. As nações não existem, existe apenas o direito à auto-determinação.
Espanha e Turquia não são nações, são abstracções que tiveram na sua génese ideias imperiais mas que neste momento estão destituídas de sentido. Os Bascos, Catalães, Galegos, Curdos e Arménios deste mundo não se regem pelas nações existentes, ou senão teriam de renegar a sua própria existência. Guiem-se pela vossa interioridade, guiem-se pelos vossos sentimentos, mas nunca façam uma coisa: não deixem de levar os vossos potenciais ao máximo, nunca deixem de sonhar, procurem sempre algo mais distante, mais reluzente, desde que vos faça feliz. Porque a felicidade não se compra com american express nem se aluga em leasing, nem se compra nos outlets ou em franchisings: como qualquer carro moderno que traz air-bag, a felicidade já vem de série. Mas não vem na descrição do produto. Têm de ser vocês a descobri-la. E, minhas caras amigas, não há livro de instruções que vos valha. Nem produto da tv-shop. Mas não se preocupem, quando eu descobrir a minha mando-vos um sms a avisar.