Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
sexta-feira, outubro 22, 2004
INSTANTÂNEOS hoje sorri três vezes
Fujam de mim, cães! Abram alas, meros transeuntes! Gomes is on the sidewalk, and beware of his anger!!! (merda, agora é em português) Quando ando pela rua sou incrivelmente carrancudo. Só olho para o chão para não pisar nada, ou para as montras para ver o meu cabelo no ar. As pessoas, na minha mente conspiratória, parecem fazer fila para me importunar, para se atravessarem à minha frente. Acabo estas fugas pela realidade a arfar raiva quando chego a casa, tal é o desespero que me causa o comportamento urbano dos portugueses. Não interessa se ando de carro, a pé ou de bicicleta. Há que desviar para a direita, dar um salto, parar, acelerar, sempre com os olhos bem abertos. Porque eles andem aí.
Hoje, apesar de tudo, foi um dia bom. Li o jornal até às três e tal, depois passei pela casa do Costa para o convidar para uma volta de bicla. Ele estava atarefado com um computador, não podia. Saí de lá sem companhia mas com a certeza que a porca que segura o volante (nada de segundos sentidos nesta frase, atenção) estava moída. Passei pela loja das bicicletas, eles confirmaram-me o penoso diagnóstico, mas fui dar a volta na mesma. As obras avançam na marginal de Vila de Conde à mesma velocidade que recua a qualidade do passeio, e o mar de Inverno espalhou areia pela rua, só para me piorar o dia. Eu continuava bem disposto, apesar de tudo.
Já ao chegar à Póvoa, no Porto de Pesca, aproveitei a descida e o vento por trás e larguei o guiador. A sensação de liberdade foi tão grande, o sol a bater-me na cara, que soltei um enorme sorriso de satisfação. Soube-me bem aquele momento. Entretanto deixei a bicicleta para compor. Segui a pé. Ia a atravessar a rua, e um idiota de Mercedes lembra-se de estacionar na passadeira, bem à minha frente. Parei, num misto de fascínio pela ave rara e de ódio, e quando ele pára definitivamente abaixo-me para confirmar a cara de estúpido do condutor. Sempre era verdade. Segui a pensar que o dia me estava a correr assim para o mal. Mais à frente, na Praça do Almada, estava um casal com um puto escondido nas pernas. Pus-me a sorrir para ele, já que os pais estavam de costas, e ele, a custo, começou-me a sorrir também. Perdi a compostura e a minha cara desfez-se num enorme sorriso. Os pais não se chegaram a virar. Mais à frente ri-me de novo. Era o café Táxi.
Ao chegar a casa vejo uma rapariga a caminhar na minha direcção, vinda duma rua secundária. Aproveito a desculpa de atravessar a rua para olhá-la de novo, nunca a tinha visto. Sei que estava a passear o cão, nem reparei que tipo de cão era. Devia ser da Playmobil. Já na minha rua passa por mim outra rapariga, atraente mas sem grande história. O puto que seguia à minha frente vira-se, talvez para asseverar a qualidade do rabo, sem vergonha alguma. Cruza logo ali a rua, e vira a cara para olhar a rapariga de novo. Dessa vez sorri por dentro, uma táctica boa é para sempre.
Então reparo. Antes de atravessar a rua, mesmo à frente da minha casa, o puto deitou um papel para o chão. 'Olha, já apanhavas isto, não!?!'