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quinta-feira, agosto 19, 2004
RECORRÊNCIAS de bicla para apanhar o bus
Como já devem ter percebido, eu sou da Póvoa. (Este é o momento certo para os adolescentes dizerem daaaaah!!!!) Os seus altos nunca são muito exagerados. Anda-se bem de bicicleta por cá. Raramente uso o carro para me deslocar na Póvoa. Já fui sair à noite de bicla, vou sempre para a praia de bicla, faço as compras de bicla, transporto móveis... Ok, algumas coisas nesta frase serão um pouco exageradas. Mas sou biclo-dependente.
Andar de bicla pela Póvoa é bastante traumático. Não os condutores, esses têm bastante respeito pelos ciclistas, mas os transeuntes. Atravessam-se, fogem para o lado errado, não ouvem a campainha. Nunca ninguém lhes ensinou o que é uma bicicleta?
Há uns dias, na altura das acções de formação no Porto, lembrei-me de levar a bicicleta. Acho que já fiz muita coisa idiota na minha vida, não vou fornecer a lista, mas se forem anotando as que vou escrevendo aqui já ficam com uma lista condigna. Antes de entrar na camioneta na Póvoa pedi ao condutor se podia pôr a bicla na parte de baixo. (Nota mental: arranjar um nome para a bicicleta, carinhoso, de preferência.) A estranheza começou aqui. Da camioneta para o metro é limpinho, agradeço ao camarada Souto Moura a delicadeza. Na rotunda da Boavista passou-me o deslumbramento e lembrei-me de novo onde estava. O trânsito, às 9 da manhã, era tão encafuado que nem a minha esguia e elegante bicla passava. Nas acções de formação ninguém se acreditava na história de ter trazido a Gazela (inventei este nome agora, a marca da bicicleta é Gazelle), e quando a viam só deviam pensar 'xi, mais uma cromice do gomes. qd é k ele cresce???'. Há alturas em que tenho mesmo de desligar a telepatia. Andar no Porto já foi complicado, para andar com o Miguel tive de pôr a Gazela no carro dele, que estava a quilómetros de distância.
À noite, no Viso, reparei que o autocarro que me iria levar à Póvoa era do estilo suburbano. Ou seja, autocarro baixinho, sem espaço para arrumações. Assim estilo STCP. E a Gazela? Ainda tentei parlamentar com o condutor, que me explicava, entre uma fumada do charuto e uma boca à turista chinesa perdida, que bastava 'esperar mais hora, pelo autocarro seguinte.' Esse era seguramente maior e já levava a bicla. Isto às onze da noite num bairro social no Porto. Lá teve de ser. Transportes públicos + bicicleta = má ideia.
Na Póvoa, quando chego de bicicleta, perguntam-me 'perdeste a carta de condução?' ou 'o que se passa com o teu carro?' ou mesmo 'tu tens carta de condução?'. Acho que ninguém admite que tem uma inveja incrível de mim. Quem lhes dera ter a minha coragem de andar de bicla todos os dias. Não poluo, não barulho, não fodo o trânsito, não ocupo lugar de estacionamento.
Uso transportes públicos por motivos semelhantes. Quando vou ao Porto costumo usar os Transportes Alternativos do Metro. Não por ser mais barato, não por ser mais rápido, não por ser mais cómodo. Como na maior parte das minhas decisões, faço-o primariamente por gosto. Adoro ser conduzido. Ter disponibilidade para ver a paisagem, quando a vista se cansa do livro. Não pensar em estacionamentos idiotas. Uma vida mais simples.
Uso-os também por razões mais comunitárias. Ir de carro para o Porto é apenas a minha humilde contribuição para o agudizar do problema do trânsito. Eu gosto de dar o exemplo, apesar de às vezes esse exemplo me sair do corpo. Quando as coisas correm mal questionamos os nossos procedimentos. Apenas as coisas boas escapam a estes julgamentos.