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domingo, julho 11, 2004
RECORRÊNCIAS fronteiras e povos
Existem inúmeras situações pelo mundo onde comunidades são oprimidas pelos governos por razões étnicas, culturais ou religiosas. Existe o caso de Euskadi (país basco). Nesta zona da Península habita um dos povos mais antigos da Europa, reduzido a apenas dois milhões de vidas (no lado espanhol) e dividido em dois países. Por um lado surge a Espanha, ainda com um espírito imperialista e votada a um sonho irreal: a partir de uma capital "artificial" criada bem no centro da Península, impôr nas várias comunidades a vontade castelhana. Por outro surge a França, um dos países mais centralistas da Europa, que só nos últimos anos procurou dar alguma autonomia a comunidades como a Córsega.
Os Curdos são um caso ainda mais bicudo. Dividido por quatro países (Iraque, Irão, Síria e Turquia), o Curdistão teria, para existir enquanto entidade, de ser um país independente. Porque senão existiriam quatro comunidades (mais ou menos autónomas, dependendo da vontade dos quatro governos), e um povo separado. Aqui começa-se a vislumbrar ainda os vestígios do colonialismo. O Iraque, por exemplo, foi uma invenção dos ingleses, pois aquela delimitação servia os seus interesses na altura. Já deu para ver a má ideia que foi.
O exemplo mais crítico vem do Sudão, mais precisamente da região do Darfur. África é ainda uma manta de retalhos, no mínimo, mal cosidos. A grande maioria dos países são multilingues e multiculturais, o que gera conflitos. No Sudão a situação é emblemática de todo o contexto africano: a comunidade negra do Oeste partilha a mesma origem que a população do Chade, seu vizinho. A comunidade que domina o Sudão, os muçulmanos menos negros, decidiram eliminar os mais negros e menos muçulmanos do Oeste. Claro que uma redefinição fronteiriça está fora de questão: se ainda na Europa subsistem problemas destes, o que esperar dos países africanos, onde os índices democráticos são ainda escassos? Apenas para me contradizer, vou referir o caso da vizinha Eritreia como exemplo a seguir. Este recém-formado país separou-se da Etiópia de uma forma pacífica (apesar dos anos de guerra civil que o antecederam.) Eles conseguiram. Pelos vistos, não é assim tão difícil.
Chipre é também uma situação complexa. A maioria da população é grega, mas sempre existiu também uma minoria turca. Com as invasões turcas dos anos 70 as peças mudaram um pouco no ‘xadrez’ local, com a artificialidade que advém de conquistas, de guerras. Preconiza-se para Chipre um modelo ‘helvético’, um país com várias comunidades distintas. Isso resulta na Suíça (e também na Bélgica) porque se tratam de países prósperos. As coisas têm-lhes corrido bem, porque haveriam de mudar? Não sei se isto resultaria em Chipre, mas é de longe a melhor solução. Boa sorte para eles.
Existem, ainda assim, situações em que a minha opinião é beeeeeem diferente, como o Kosovo. Lá, a (recente) maioria albanesa conseguiu expulsar ou matar quase todos os sérvios que restavam. No início do século passado, os albaneses no Kosovo eram dez por cento da população; agora são mais de noventa por cento. Isto porquê? A Albânia é o país mais pobre da Europa, o menos civilizado (e, assim, o menos europeu). Diz-se que os albaneses se reproduzem como coelhos, que a família média albanesa tem 9 filhos. Ora o uso de contraceptivos e o planeamento familiar são sinais civilizacionais; a aparente falta de civilização deste povo origina estas explosões demográficas. Agora são a maioria no Kosovo, querem a independência. Eles já são vinte e tal por cento da vizinha Macedónia. O que vai acontecer quando chegarem a cinquenta por cento?
Há quem diga que os loiros estão em extinção. É óbvio que eles são uma minoria em Portugal. Como seria se começasse a haver uma imigração em força de loiros de todo o mundo para o Alentejo? E se, no seguimento disto, os loiros residentes começassem a reproduzir-se em força e se tornassem uma maioria? Começavam a aterrorizar as populações morenas da região, expulsando-as, até conquistarem o poder? Não se iludam, a situação no Kosovo é igual. Eles não têm direito a nada. Mas não sei qual a solução.
O exemplo de Israel está nos antípodas de tudo o que disse para trás. Os judeus indicam um passado de “milhares de anos” naquela terra, o que indica que ela lhes pertence. Isso e a história da “terra prometida”. Por essa ordem de ideias os muçulmanos poderiam voltar à Península e dominá-la. Pelo menos a parte espanhola. Afinal de contas, os espanhóis só cá estão há 500 anos e os árabes estiveram cá 700 anos. E este foi um dos reinos mais prósperos de todos os reinos muçulmanos. O que me irrita mais na questão de Israel é o papel hegemónico que os judeus têm lá desde que os ingleses deixaram o país. Através do poder económico e militar que ostentam, são eles que controlam a situação. Os palestinianos estão numa posição subserviente. Quando se fala do Médio Oriente refere-se esta ou aquela política israelita que vai ferir os palestinianos, e os israelitas falando da sua “necessidade de proteger a população israelita” e o “estado israelita”. Independentemente do modo como surgiu o “estado israelita” ou como se tem mantido, quem colocou os israelitas numa posição superior aos palestinianos? Quem lhes deu o poder para “proteger a população israelita” dos rebeldes palestinianos? Porque não são os palestinianos a mandar naquela zona e a oprimir as populações israelitas? Os israelitas, quando chegam ao fim duma discussão e reparam que não têm argumentos para a situação que se verifica, usam este argumento final: “Houve guerra, nós conquistamos território, e é isso”. Como se a guerra justificassealguma coisa.
Temos é de dar graças por Israel ser a “única democracia do Médio Oriente”. Com democracias daquela, o que esperar duma tirania?