Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
segunda-feira, julho 26, 2004
OCORRÊNCIAS Carlos Paredes (1925-2004)
Começo a aperceber-me que chorar não é fácil para mim. Controlo as lágrimas, retraio-me. Convenções sociais, talvez. Mas dá-me vontade de chorar quando vejo a repetição do golo do Maniche. Quando falam de um jogo como 'um dos melhores da história' as lágrimas aproximam-se, insinuam-se. Quase chorei no Homem-Aranha, quando ele salva o comboio e as pessoas, num gesto fraternal lindíssimo, ajudam-no. Aparentemente só 'quase' choro por coisas idiotas. Outras vezes choro a sério, começo a soluçar e a minha voz fica mais fina, um pouco feminina talvez.
O Carlos Paredes morreu, e eu 'quase' chorei. Limpei os olhos várias vezes, ainda solucei uns segundos. As televisões sabem pegar nestas coisas e torná-las choráveis, mas quando morrem pessoas famosas não me costuma afectar.
Carlos Paredes parecia transportar para a música que tocava um pouco do seu ser. Transmitia uma imagem de herói romântico, intransigente na sua arte, tragicamente belo na sua genuinidade. Morreu um pouco esquecido, sem o reconhecimento que lhe era devido, sem um fundo público que o sustentasse. Já não há homens assim.