Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
segunda-feira, julho 26, 2004
FICÇÕES o bom ditador
Há quem me questione, aqui e ali, o porquê de eu ser alfarrabista. É uma profissão que, para lhes ser sincero, acumula muitos dissabores e contratempos. Oscila muito rapidamente entre dias bons e semanas, meses e mesmo anos menos bons. Não é todos os dias que recebemos no nosso estabelecimento uma edição original dum Camilo Castelo Branco ou dum Júlio Dinis, com capa de couro e lombada letrada a ouro. São também boas as manhãs em que um cliente espera, avidamente, lá entre as nove e as nove e um quarto, a abertura da loja. Digo-lhes que não, que o Cervantes numerado não é para já, que as revistas francesas de artes decorativas chegam só na próxima semana, sempre com o sobrolho ligeiramente franzido e com um ar de enjoo matinal.
Estes são, na realidade, os melhores momentos do meu dia. Apenas finjo um ar de chateado para parecer que sou um alfarrabista muito ocupado. Ou que sou muito prestigiado. Nada disto é verdade, mas gosto de me convencer do contrário.
Ser alfarrabista é um pouco como ter um café. Um pingo directo equivale a um Mário de Carvalho ou a um Mário de Sá Carneiro, ou talvez a um Rui Zink. Um Compal e um croissant serão talvez um Miguel Esteves Cardoso e um Émile Zola. Sem creme, claro. A um B active drink ou uma caipirinha responderia que não trabalhamos com a Margarida Rebelo Pinto ou com o Paulo Coelho. Se pedissem uma torrada com mel, por exemplo, pediria que esperassem um pouco, era preciso encontrar o mel e tal. Era como se me pedissem poesia medieval portuguesa versando castelos e feiras, tinha de investigar e encomendar.
Agora, se chega alguém e pergunta Vocês fazem Entromisado de Chaimírias à Modinha de Pipicola? É muito popular agora!, o que responder? Ora, meus amigos, para isto ninguém está preparado. Nem anos de experiência, nem acções de formação, nem a vizinha do lado! Aconteceu há dois meses, quando o meu estabelecimento foi, posso dizê-lo, invadido por um desses intelectuais de segunda. A roupa encardida, a pêra cofiada, um ar de tísico mal amanhado. Soltou alto e bom som Sua Excelência poderia indicar-me em que prateleira posso encontrar a edição britânica de 'Clueless in Nebraska' de Arnald Winter? Sabia que este livro quebrou todos os recordes de best-sellers da história? Li ontem no 24 Horas. Ora, a um cliente normal, habitué, olharia-o com ar raivoso e diria Não trabalhamos com literaturas anglófonas!!! ou algo semelhante, apesar de ser mentira, apenas para o calar. E ele sairia com o rabo entre as pernas, envergonhado por ter dito aquilo.
Ora este Torquemada anacrónico, do alto do seu metro e meio, notou a minha hesitação. Então?, rosnou. A verdade é que não fazia a mínima ideia do que ele estava a falar. Ainda esbocei um olhar para uma das prateleiras, mas logo encolhi os ombros. Não conheço esse autor. O 'cliente' ensaiou um leve sorriso, que rapidamente se espraiou por toda a sua face, num óbvio ar de desafio. Durante longos momentos fitou-me, seco, triunfante, desdentado. Ele estava a ganhar, a cobrir-se de glória. Eu sentia que o suor não tardaria, começava o tique nervoso do olho esquerdo. 'Isto, na minha própria livraria? É insuportável!' pensava, e a tensão crescia entre nós dois. Quase que diria que notei uma poeirita a cruzar o ar, insinuava-se um duelo pela morte ao bater do meio-dia. Aí não hesitei, anos a maltratar clientes difíceis vieram ao de cima. Nem o deixei sacar a arma. Mas o amigo pensa que está no Continente? Aqui não se vendem best-sellers, só best-writers. Pode sempre tentar a Bertrand ali da esquina, eles até têm cartão de cliente habitual!
Nunca mais por cá apareceu. Deve ter-se refugiado num bar qualquer, a beber Safari com cola ou algo assim.