coisas do gomes
Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
quinta-feira, junho 03, 2004
 
RETROCESSOS
compromissos sociais: emprego e casamento (1)

Quando revejo posts passados noto que falo constantemente de pessoas, quando estou invariavelmente a falar dos portugueses. E não da raça humana em geral. Parece-me injusto para "não-portugueses" que possam ler o coisas pensar que me estou a referir a eles. Descansem, falo apenas do que conheço bem. Falar mal dos portugueses chega-me.

Os portugueses (et voilá) não conseguem pensar no conjunto. São um povo que se rege por valores individualistas (ou ao contrário: não têm consciência de sociedade). Os seus objectivos são pensados a médio ou curto prazo, e não têm filosofia de grupo (apenas se defendem a si e à família mais próxima). Por isso temos tantos acidentes rodoviários, o português acha que as regras são feitas para os outros e, por não terem consciência do conjunto, não tem noção do perigo que a sua condução imatura pode ter para os outros. É também por isso que temos tantos fogos florestais: para além de ser um crime fácil e impune, os pirómanos não têm consciência do mal que estão a fazer. um incêndio (X) pode muito facilmente multiplicar-se por vários Xs. Because they don’t know better. Fugir aos impostos ou cometer burla é também moda, porque não hei-de eu de lucrar com a imbecilidade dos outros? Se já acho idiota cometer burla em instituições privadas, fazê-lo quando se trata duma instituição pública é basicamente roubar-se a si próprio. Há pessoas que não pensam. Ou que apenas pensam para o lado errado.

Por estranho que possa parecer, o português consegue observar certas regras e cumpri-las com admirável certeza. Uma delas é o casamento. O casamento é essencial na vida por duas razões: constrói como mais nada um status social e é uma fonte inesgotável de sexo. Sem menosprezo para o amor, o casamento é, para muitos portugueses, a melhor maneira de terem sexo sem problemas, numa base diária (aí já depende das características mais ou menos fogosas do amante). E, como o sexo é a parte mais importante da vida para muita gente, é natural estabelecer-se compromissos com o/a consorte para manter uma relação estável e sem ondas. Os homens deixam de dizer asneiras, andam com as fraldas dentro das calças e deixam de ser porcos. As mulheres rapam-se, fazem a comida e fingem interessar-se pela conversa do marido. As pessoas mudam, em suma, para estarem com outra pessoa. Transmorfam-se, reciclam-se, esquecem o que eram antes do casamento. A verdade é que muitos de nós não estão preparados para uma vida em comum. Às vezes a mudança até é boa.

O casamento pode ser também o fim duma vida social: “Ou és casado ou tens vida social. Ou uma ou outra” dizia-me há uns tempos um amigo, que não era casado mas era conhecedor de causa. Pelo casamento desfazem-se amizades sem grande dificuldade. Para defender a sua “raínha” (mulher) os casados sacrificam muitos “peões” (amigos). O que é uma grande idiotice. Uma esposa é apenas a nossa melhor amiga, aquela com quem partilhamos tudo.

Os solteiros, por seu lado, não largam o estigma de párias. Mesmo que vivam com alguém, mesmo que tenham uma relação mil vezes mais saudável que muitos casados. Mesmo que sejam felizes. Ok, tirando as questões legais (que podem ser colmatadas pela lei das uniões de facto), para que serve o casamento?




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