Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
domingo, abril 18, 2004
FICÇÕES S|AID|A
Esperar por algo consegue ser uma das minhas actividades favoritas. Já me disseram que sou fácil de entreter. É verdade. E estar à espera consegue ser, na maior parte das vezes, a melhor parte do dia. Ganha-se outra noção da realidade apenas pela melhor compreensão do espaço ou das pessoas que nos rodeiam. Soltamos a mente de anteriores preocupações e apenas esperamos. E enquanto o fazemos aprendemos.
Esperar meia-hora pela partida do comboio do Pocinho comprovou a regra. Sob o símbolo "POCINHO" aparecia escrito "SAIDA", no arco que encima a porta. Como em qualquer outra estação portuguesa neo-assim-assim esse arco tem uma chave, um elemento que o remata. O S e o A de "SAIDA" estão escritos sobre o arco, enquanto que o resto da palavra está sobre a chave.
Consigo facilmente imaginar um forasteiro que não sabe onde é a "SAIDA" da estação e está preocupado porque pode perder o autocarro para Foz Côa. Passa uma vez e apenas vê "SAID" sobre a porta, porque o A fica invisível se for visto apenas de um dos lados. «Que giro, devem ter uma pequena biblioteca e ainda assim uma secção dedicada a EDWARD SAID. Bestial, nunca pensei que houvesse em Portugal tanto interesse na situação política do Médio Oriente.»
Passado um bocado, vindo da direcção contrária, ollha outra vez para o topo da porta. "AIDA". «Incrível! Também existe uma fonoteca, e tem uma secção dedicada à AIDA! Quem diria que o Verdi é tão popular por cá! Mas onde raio é aquela SAIDA?...»
Passado dois bocados, completamente derreado, o forasteiro já tinha esquecido a camioneta e apenas pensava em sair vivo daquele sítio diabólico. Pára em frente da mesma porta e agacha-se para recuperar o fôlego. Quando levanta a cabeça repara outra vez na frase sobre a porta, "SAIDA". «Hã, é isto! AID! Aqui devem-me poder ajudar!»