coisas do gomes
Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
segunda-feira, abril 19, 2004
 
ESQUIZOS
hipótese (1)

Cena 1

Pedro lavando os dentes

Quarto-de-banho de apartamento com maus acabamentos, uma ventoinha sempre a zunir e com o chuveiro a pingar. Poucos azulejos ainda inteiros, espelho de plástico a desprender-se da parede e tecto preto na zona do chuveiro.


A espuma eterniza-se no canto da boca, começa a acumular-se. Pedro lava os dentes como quem olha o infinito, mas com ritmo, cima, baixo, trás, frente.

Então vê um cabelo bem à frente dos olhos. Fita-o. Muito tempo. Olha para baixo para uma das mãos, está a segurar a escova, roda a cabeça para a outra, está a segurar o dentrífico. Mira as duas então. Algum tempo. Fita outra vez o cabelo. Mais um bocado passa.

O telefone começa a tocar, Pedro entra em pânico, larga a escova e o dentrífico, ao abaixar-se olha de novo para o cabelo, levanta a cabeça bruscamente como quem empurra o cabelo para trás mas bate com a cabeça no lavatório. Senta-se de cócoras, sempre a agitar o tronco de trás para a frente, como um bebé com birra. Põe a mão no cucuruto, sente o sangue quente a encher-lhe a mão. Fita a mão cheia de sangue, assustado com a sua própria fragilidade ou mortalidade. O telefone pára de tocar, ele pára de agitar o tronco e pousa a mão. Vários segundos passam.


Cena 2

Telefone

Telefone na zona comum do apartamento, num móvel perto da entrada com cadeira incorporada. Pedro nunca se senta lá, parece-lhe idiota, fica sempre de pé inclinado sobre o telefone, de modo que quase não se vê a sua cabeça. Luz coada e centralizada na sua cabeça, que revela alguma da sua calvície.


Aí começa a tocar de novo. Pedro vai apressadamente atender. Gomes, Pedro. Quem fala, por favor? Era o seu chefe, queria horas extra no dia seguinte, tinha de preparar um dossier para um projecto e ir entregá-lo em mão a Lisboa. Pedro balbucia que não é sua função expressa fazer trabalho de correio, o chefe finge não entender, até amanhã Pedro, Pedro continua o discurso que nesse dia não podia, que ia perder o seu curso de inglês qu era já a terc…, o patrão responde com um click.

O sangue já tinha enchido o auricular. Pedro não parece reparar, o seu olhar ainda parece fitar o chefe de um modo ameaçador. A mão esquerda em punho, quase a partir a gilete. O sangue toca o chão.


Cena 3

No trabalho

Pedro detesta o sítio onde trabalha e o seu chefe. Escritório de terceira categoria, chão de azulejo cinzento com marcas de anteriores utilizações, beatas por todo o lado, hciruZ colado nas janelas para o lado de fora. Rua de subúrbio, entre prédios e mais prédios rua de casas de trabalhadores de antiga fábrica de material militar. Nalgumas das casas ainda há viúvas e antigos trabalhadores.


O chefe está bem disposto, assobia, olha o rabo da sua secretária ostensivamente mesmo depois de ela se levantar e reparar. Pedro faz o seu trabalho no seu canto, tem de rever os números numa apólice e antiga e cruzá-los com uma apólice nova. Já o fez muitas vezes, esta parece-lhe custar mais.

O patrão recolhe o seu casaco e acendendo o seu charuto, diz a Pedro que o último comboio para Lisboa passava às nove e meia, que não se atrasasse. A secretária já tinha saído faz umas horas. Começa a conversa com um sorriso, vais ver que corre tudo bem, entregas isso que é muito importante e mais este embrulhito, vais ver que corre tudo bem, repetiu. Então aproximou a sua boca da orelha de Pedro e diz-lhe, devagar mas concisamente, enganas-te e os meus meninos fodem-te, percebes? Percebes? Então remata a conserva com outro sorriso, vais ver que corre tudo bem.

Saiu a bater a porta. Pedro desfaleceu, com cara sobre o sobrescrito, com o corpo cheio de suores frios. Quando recobra os sentidos já era quase hora do comboio, agarra o que tinha de agarrar e corre para a estação.


Cena 4

Na rua

Rua a descer da Baixa de Lisboa, vento a correr e pessoas a deixar o lixo na rua, já tinha começado a novela e havia muitas janelas com luz, mas Pedro era o único a andar na rua.


Chega à Praça da morada que lhe indicaram. Dois polícias entram na Praça por uma rua mas logo saem por outra, tempo suficiente para Pedro se sentir ainda mais friorento. Tinha acabado a apólice no comboio, estava tudo correcto e devidamente assinado. Parou a olhar para uma folha que se tinha desprendido duma árvore, fica uns segundos a olhar para o chão, quando levanta a vista para ver a árvore de onde se tinha solto a folha vê uma figura em perfil que o olha de um prédio com as luzes todas desligadas menos aquela. Agarra os documentos no peito e segue para a morada indicada.




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