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domingo, março 28, 2004
FICÇÕES a volta da vida
Porque dizer que não, havia uma coisa na vida de Jorge que não funcionava assim tão bem. Tinha uma vida certa e acertada, não deveria ter dúvidas ou incertezas. O sopro de Deus tocara-lhe o topo da cabeça, levantando-lhe ligeiramente o cabelo e dando-lhe uma vida votada ao sucesso. Jorge Martins-Bairrada era um geneticista premiado, autor de setecentos e cinquenta e seis artigos em publicações científicas e mais de doze mil citações em trabalhos alheios. Tinha descoberto a cura para catorze doenças e tinha, no total, salvo a vida de mais de duzentos e dez milhões de pessoas, só na África sub-sahariana. Todos estes grandes feitos eram naturais para ele, não se lhe eriçava a pele enfrentando a novos desafios, mas crispavam-se-lhe as mãos com a ânsia de começar. Descendia de uma longa linhagem de guerreiros e pensadores, homens que ajudaram a fazer e a desfazer nações, credos e culturas. O que mais podia ser, senão grande? Tinha já ele uma extensa prole, que por sua vez já tinham tido filhos, todos grandes cidadãos e exemplos a seguir. Nada a apontar, nada. Só grandes qualidades, grandes feitos.
Até que um dia o seu ar de altivez tornou-se hediondo. Uma grossa e repelente espinha tinha-se encrostado bem no alto do seu nariz. A conferência de imprensa da tarde estava arruinada! Como iria anunciar ao país e ao mundo que tinha resolvido a teoria das espécies através da observação de salmonelas, com aquela calosidade ridícula a decorar-lhe o centro da cara? Desesperado, telefonou ao seu assistente e, com um choro de criancinha a intercalar-lhe as lágrimas, anunciou, derrotado, ‘tou bem fodido, Pedro, a minha carreira acabou! Buááááá!’. Pedro já conhecia bem estas crises, Jorge não conseguia aparecer em público sem a certeza de que brilharia. Por isso era tão esmerado no seu trabalho, por ser algo que podia controlar. Mas ninguém controla o seu próprio corpo, e era o corpo que Jorge mais detestava. Este era talvez o seu pior defeito, e a sua grande falha. Negar aquilo que lhe Deus lhe tinha dado.
Pedro pousou os óculos, apertou com os dedos a zona entre os olhos, suspirou duas vezes e disse, pausadamente: ‘Doutor, já o vou buscar, vai comigo a um sítio, ok?’ Meia hora depois chegaram ao destino: La Salete, esteticista. "Se nos safarmos desta nem sei que faça!" pensava Pedro, enquanto puxava o doutor do banco de trás do carro. Jorge entrou no salão de beleza com suores frios e uma dor horrível no estômago. La Salete, como sempre, recebeu o cliente com um sorriso aberto e disse, pausadamente, ‘doutor Bairrada, que honra, faça o favor de se sentar.’ Então, seguindo um esquema mil vezes repetido, espremeu-lhe a espinha, desinfectou-a e cobriu-a com base. Nada mais fácil, nada mais difícil para Jorge.
Nas semanas seguintes Jorge largou todos os compromissos anteriores e casou com La Salete, criando então o famosíssimo salão “La Salete e Jorge, Estética e Genética".