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Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
terça-feira, janeiro 13, 2004
FICÇÕES as lições da mestre Lurdes A manhã começara dura. E fria. Nunca pensei acordar no chão agarrado à coluna da aparelhagem como se fosse uma almofada. Já há muito que havia abandonado o suave trilho entre os sobreiros. Andava perdido pelo meio dos matos, entre os cardos e as azinheiras. Do nascer do sol ao seu pôr, era um acumular de fraquezas de carácter que me infligiam amargos insuportáveis. Ainda no dia anterior tinha deixado as minhas vestimentas a secar. A urze estava sem brilho, o que mostrava com grande verdade que o céu estava encoberto e não tardaria a chover. Como ainda ignorava o “caminho da verdade”, fui à mais importante assembleia de anciãos da época com o meu traje húmido, assim como o meu nariz. Os anciãos não gostaram, e começo a ver a minha situação na tribo tão cambaleante como a do coelho mordido pelo açor. Essa manhã, que comecei no chão como o mais reles dos animais rastejantes, viria a ser o que agora gosto de referir como “iluminação”. Passei pela dona Lurdes que, cândida como a andorinha primaveril sobre o fio da electricidade, fazia crochet "pousada" na sua cadeira alta, com as pernas cruzadas no que agora sei ser a “posição do alecrim”. Como sempre, o seu olhar acompanhou o cambalear dos meus pés enquanto dizia ‘bom dia, senhor Cardoso’. Dona Lurdes tinha sido desde sempre a xamã do meu clã, ainda antes de o meu avô se estabelecer como líder da tribo. Ninguém sabia de onde vinha nem qual os seus parentes, mas tinha aparentemente sido aceite no nosso grupo sem grande contestação. Nunca ninguém a via a executar as suas tarefas. Levantava-se muito antes do garnizé e então executava de forma célere os trabalhos do dia. Desde que viera trabalhar na minha habitação, nunca na minha presença soltava qualquer tipo de som, excepto quando me saudava, de manhã e à noitinha. Durante o dia era fácil encontrá-la: ou tricotava na sua cadeira alta num canto do corredor, ou podava as glicínias na varanda para o jardim. Quando cheguei à cozinha, lá estava a minha caneca com o carvalho desenhado, que tinha recebido do meu pai no leito da sua morte. Dentro dela fumegava o meu café com leite, que todas as manhãs tomava para me aligeirar a fronte e estimular os sentidos. Mais estremunhado que o costume, peguei na caneca sem gastar com isso mais do que dois momentos da minha atenção. E logo a larguei, soltando um urro que acordaria o grande lince da serra. Estava cálida para além do suportável, ali jazi no chão durante longos momentos, agonizando na minha própria imbecilidade, entre os destroços do que antes era a minha caneca. Então virei a minha atenção da minha mão encarnada para o corredor, por onde conseguia entrever dona Lurdes, tão pequena e insignificante no alto da sua cadeira quanto o pinto nas garras da águia-real. Olhava-me com os seus pequenos olhos, claramente reprovando a minha acção. Com um salto ágil largou a cadeira e dirigiu-se na minha direcção na sua maneira peculiar de andar, que consistia em passadas curtas mas muito rápidas, como a alvéola à procura de comida. Já na minha proximidade, agachou-se e pegou na minha mão e, com um movimento rápido e treinado, tirou de baixo do seu avental branco uma unção, que rapidamente aplicou na minha mão sofrida. Então virou os seus olhos de azeitona por colher e proclamou, apontando com o seu dedinho para o pedaço de caneca mais próximo ‘vê como as gotas de vapor de água se acumularam nas faces da caneca? Tem de deixar esfriar até elas desaparecerem.’ Observei atónito enquanto ela graciosamente recolheu os pedaços de caneca à minha volta. Com a minha mão já sem agruras, e de volta à sua cor rosa de flor, fui ao encontro dela. Com a tesoura de poda na sua mão direita, olhava o penhasco com a mão esquerda a travar o sol. Quando pressentiu a minha presença, pousou a tesoura, apontou para um ninho de abutre e, proclamou, com uma força que a sua avançada idade não indiciava, que ‘assim como o grifo mostra à sua cria o voo, também o ensinarei a andar sem afugentar os estorninhos do salgueiro.’ Então deixou-me para voltar para a sua costura. Antes da alvorada seguinte esperei pacientemente à porta do seu quarto. Queria saber os seus ensinamentos, mais do que o próprio respirar. Era grande a ansiedade, apenas comparável com a sede de saber que sentia. Então começaram novas eras de conhecimento, quando ela, sempre de madrugada, me ensinava a ouvir a gota única de fairy a cair na água da louça ou a saber interpretar, através da espuma do leite, os desígnios dos astros. Os ensinamentos da mestre Lurdes, como lhe passei a chamar, trouxeram-me uma quietude de espírito inabalável que me permitiram triunfar na assembleia de anciões à maneira, como eles referiram, do meu “saudoso avô”. Não posso dizer que a minha vida tenha melhorado depois da mestre Lurdes, porque o que antes tinha não era vida, mas uma não-vida. “Salta como a cabra do monte, chilra como o peito-ruivo, coaxa como a rã”
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