coisas do gomes
Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
domingo, janeiro 11, 2004
 
CRÓNICAS
férias das férias II

Já vos contei a minha ideia de passar de ano em Lisboa. Agora falo-vos das viagens que me levaram até à bonita e alva capital.

A ida, assim como a vinda, foi no intercidades da CP. Adoro transportes colectivos. Entre outras coisas, adoro o contacto com outras pessoas. Mas há certos contactos que prefiro evitar, como concordarão quando chegarem ao fim deste texto.

A ida foi na segunda 29, já que quem ia comigo apenas estava disponível no dia 31. Ora estar dois dias a pensar em ir para Lisboa era demais para mim. Apanhei mesmo o quim das oito em Campanhã para chegar a Lisboa à noitinha, antes da meia-noite. Carruagem 22. Estava espantado com as boas condições a que tínhamos direito na turística. Um caixote de lixo só para nós. Mesinha e tudo. Porta automática. Cabide para o meu casaco de executivo (nota mental: arranjar um casaco de executivo para a minha próxima viagem no intercidades). Estava maravilhado! Tirando os plásticos manhosos dos bancos, parecia-me tudo minimamente confortável.
A carruagem estava dividida em duas, entre fumadores e não. Cada uma dessas secções tinha metade das cadeiras viradas para a frente e a outra metade para trás. A única zona onde havia pessoas olhando outras nos olhos era mesmo no centro, onde havia lugar para um grupo de oito pessoas. De onde eu estava só via nucas à minha frente. No centro ia sentada uma alemã e com dois putos. Como me tinha esquecido dos fones na Póvoa, durante a primeira hora tive alguma dificuldade em ler, com os putos continuamente a fazer escarcél. O pior ainda estava para chegar, pois a cândida alemã mostrou-se uma digna kapo em qualquer campo de concentração. Quando se irritava com os putos, berrava com eles o mais que podia, insultava-os e assustava-os de uma forma medonha. Pareceu-me que ela seria casada com um português, porque no meio dos scheisse e afins pareceu-me vislumbrar um fodassecaralho bem subliminar. Acabei por ficar a conhecer bem melhor a carruagem onde me encontrava, porque quando a Helga se punha a blasfemar pousava o livro e punha-me a olhar para o tecto. Não sei quanto a vocês, mas eu não consigo concentrar-me enquanto alguém atemoriza os próprios filhos numa língua estrangeira. A viagem já estava a correr mal. Isso era certo.
Nunca pensei que fosse piorar. Algumas estações depois de Campanhã entrou um tipo alto, acompanhado de uma mulher que devia ser a mãe, e sentaram-se ao lado da loiraça e dos putos. Conseguia ver apenas um ou outro pormenor do novo vizinho de carruagem, pois eu estava sentado longe do centro. Mas vi o suficiente para o estranhar. Então percebi a razão da minha preocupação. Ele era deficiente mental, e sempre que os loiritos mexiam o mindinho ele começava num contínuo riso idiota que só acabava quando lhe faltava o fôlego ou quando tinha de ir à casa de banho. Entre o riso idiota e os gritos da alemã, o barulho dos putos acabava por ser abafado. Até me esqueci deles. Nesta rebaldaria a leitura ia sendo adiada. Para meu espanto, consegui despachar o livro; é o que dá uma viagem de três horas e meia.
Farto daquela salada-de-frutas sonora, fui até ao vagão-restaurante comprar um twix. Alguns segundos chegavam para esta operação, pensei eu. Digo o que quero, dão-me o que quero, dou o dinheiro e recebo o troco. Nada de muito complexo. Mais um engano fatal. A viagem pelo "pior que a União Europeia tem para oferecer" ainda não tinha acabado. Um 'español de mierda', com um descaramento incrível, fumava bem ao lado do anúncio 'proibido fumar', enquanto repelia as educadas tentativas do responsável do bar para ir fumar para a zona indicada. "-Mas quien hace estas leyes? - Não sou eu, isto vem de cima! Do governo! -Es por cosas así que Portugal és una mierda! -Em Espanha as regras são iguais! -Hoder qué no! -Se fosse no seu país, cumpria as regras!" e eu com o dinheiro na mão à espera do meu twix. Felizmente o senhor teve o discernimento de me atender enquanto repelia a má-educação espanholesa. Então o tío recomeçou "-Quiero lo livro de reclamaciones! -Aqui não temos, só na estação! -Ah, usted está hodido!"

Voltei ao meu lugar. O deficiente já tinha bazado. A alemã já estava mais calma. Já pude ler em paz.

Três quartos de hora depois passam por mim dois responsáveis da CP. "-E o que é que o gajo quer? (...) Ah é espanhol?"



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