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quarta-feira, dezembro 10, 2003
RETROCESSOS a normalidade I Este texto é sobre os normais (os homens). Quase todas as situações se aplicam também às mulheres; dá é muito trabalho pôr em cada frase “namorado/a”. Vocês compreendem. A coisa mais normal que existe é querer ser normal. Só os putos adolescentes irreverentes pensam o contrário. Para estes, a normalidade não presta. É chunga. Também já fui um destes adolescentes, sempre a querer ser diferente. Vivia numa constante negação da normalidade. Hoje em dia, o que mais quero é ser normal. Como é óbvio, a minha ideia de normalidade é bastante diferente da dos outros. Quero ser "normal" comigo mesmo. Não me rejeitar. Aceitar o que sou. E, acima de tudo, fazer as coisas que eu considero "normais". O que eu noto é que, para eu me sentir "normal", tenho de ser um pária para o resto da sociedade. E aqui, meus caros senhores, temos um paradoxo. As sociedades, para existirem, têm de ter uma população numerosa. Em todas as sociedades até agora, sem excepção, a grande maioria das pessoas pautava-se pela mediocridade. Eram os normais que formavam o grosso da sociedade. Eram eles que faziam a guerra, que serviam os reis. Hoje em dia, na sociedade portuguesa, 90 e tal por cento da população pauta-se pela normalidade. Pessoas com objectivos de vida muito específicos: estudar (até onde der); casar; ter filhos; ter uma casa; reformar-se; morrer. Claro que pode não ser nesta ordem, nem me parece que alguém tenha como objectivo de vida morrer, mas é mais ou menos isto. Na cabeça das pessoas a vida é mesmo assim. Estudar: a ideia de educação superior é recente. Em muitas situações, tiram-se cursos porque os pais querem (e aí inscrevem os filhos em qualquer sítio) ou apenas para mostrar aos outros. Quem fica pelo Secundário é chunga. Quem apenas tira um curso técnico-profissional fica para trás. É a moda dos cursos superiores. Não precisamos dum país de doutores. Casar: esta é a ideia essencial na mente das pessoas normais. Casar e casar bem. Como a maior parte das decisões tomadas pelos normais, resultam de considerações de 'aspecto'. Dá 'bom aspecto' casar com uma mulher com 'bom aspecto'. Quando se apresenta a noiva aos pais, a primeira consideração que eles fazem é ‘é bonita’ ou ‘tem bom aspecto’. Mulher bonita e com 'bom aspecto' é essencial. E normal. O que tem dentro do cocuruto que se lixe. Desde que ‘dê bom aspecto’. Claro que antes de se casar tem de se namorar. Escolher bem. Quando se acha que se escolheu bem, tratar essa namorada bem, não correr riscos, para que esse namoro dure até ao dia do casamento. Num namoro que não vá dar em casamento, pode-se chutar a namorada à vontade, porque 'não é coisa séria'. Ter filhos: esta é a cláusula menos obrigatória. Nem toda a gente tem sonhos de vir a povoar o mundo com rebentos seus. No entanto, quem não o faz é também olhado de lado. Quando um casal não tem filhos, ou ‘é por não serem férteis’ ou porque ‘ele não é homem’. Ter uma casa: na ideia das pessoas, uma pessoa com um apartamento é apenas alguém que ainda não conseguiu ter uma casa sua. O sonho de muita gente é morar a cinco minutos do centro da cidade mas numa casa no meio do campo! E, invariavelmente, as pessoas têm casas grandes demais para as suas necessidades e terrenos que não usam. Reforma: há gente com a minha idade já a pensar na reforma! Ouvi no outro dia no shopping um tipo a discutir isso com a namorada. A vida profissional é, para muita gente, não a fase da vida em que se concretizam sonhos e desejos, mas uma antecâmara para a reforma. É a fase da vida em que a reforma é planeada! Não dá para generalizar, mas há muitos a pensar assim. Ser normal implica muita coisa. Vai-se ao shopping ao fim-de-semana ver as montras. É óbvio que está cheio de gente, mas é o que é normal. Passear com a namorada à beira-mar ao Domingo, apesar de ter mais gente que o shopping. Passar o serão na casa dos pais da mulher, apesar de os detestar. Comprar presentes de natal para toda a família, sem pensar individualmente em cada um dos presentes, mas apenas pela obrigação de comprar. E muitas mais coisas. Um normal veste-se como os outros. Corta o cabelo como os outros. Acaba por viver como os outros, o que me leva a imaginar que um normal pensa como os outros. Um normal não corre riscos. Apesar de tudo, o homem continua a ser um animal; e um animal tem de sobreviver. Correr riscos é contra-natura. Assim sendo, quanto mais te deixares levar pela corrente, menos tens de pensar por ti. Haverá sempre normais. Uma sociedade com muitos normais tem menores capacidades evolutivas. Um normal não tem sentido crítico. Portugal é uma sociedade com muitos normais; não há vontade de mudar coisas, pois sempre se fez assim. No entanto, a sociedade vai mudando. Cada vez há mais mães solteiras, mas também solteirões para a vida toda. Cada vez há mais homossexuais a declararem-se e mais casais homossexuais. A sociedade está numa revolução profunda. Não se enganem: não sou como o Raskolnikov, personagem do Crime e Castigo do Dostoievski. Ele achava que, do meio da turba, surgiam às vezes seres notáveis (ele referia o Napoleão) que, por serem superiores aos outros, podiam cometer crimes com impunidade, por serem seres excepcionais. Não defendo esta teoria. Somos todos iguais, da mesma maneira que temos todos os mesmos direitos. Eu sou "normal". Mas não sou normal.
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