coisas do gomes
Este é o blogue do Nuno Gomes, mau futebolista mas incrível jogador de campo minado. Se não quiseres comentar publicamente, não hesites em escrever para aulasdeviolino@lsi.pt. Para consultas urgentes, contactem-me no messenger com aulasdeviolino@hotmail.com. Os meus livros para troca.
sexta-feira, dezembro 19, 2003
 
CONCORRÊNCIA

15 de dezembro, 2003
O sarcasmo peninsular
O desprezo é a distinção dos portugueses. Não há língua tão boa para desprezar. A bílis lusitana, o asco, o sarcasmo peninsular - esse sentimento que arqueou o lábio superior de Nicolau Tolentino, encaneceu Camilo Castelo Branco e esverdeou o rosto de Eça de Queiroz - aparece gloriosamente, de armadura completa e penacho por cima, nas cantigas de escárnio e mal-dizer. Está na língua toda. Em Portugal a peste negra era chamada de dor de levadigas, Deus meu. Talvez a intenção não fosse ridicularizar a doença, mas o efeito é o mesmo; e no mínimo mostra um certo desrespeito... Parolo, pascácio, lorpa, badameco, bucha - todas as línguas são cheias de xingamentos, mas em português os xingamentos são mais ridículos e doem mais.

Os personagens de Eça de Queiroz, se fossem engenheiros da NASA, não seriam capazes de mandar gente à lua. Um deles seria mostrado arrotando champanhe vagabundo na casa da amante gordinha. Um outro recebendo massagem no couro cabeludo com um emplastro anticaspa fedido e amarelo. Seriam ruins em matemática, e jogariam (mal) xadrez nos cafés enquanto falam idiotices sobre política. Se levantariam todos às pressas para puxar uma cadeira para o “excelentíssimo senhor comendador”... Ah, acho estranho que o livro central da literatura portuguesa tenha sido escrito por um homem incapaz de desprezar, que foi Camões. Que, mesmo quando desprezava, desprezava nobremente, antilusitanamente. O pendor para a antigrandiosidade, para o enxovalho e o ridículo, já estava nítido n’ A Demanda do Santo Graal, quando Mordred virou Morderete e disse: “Ai, por quem sois?” A nossa língua não é pra ter saudades, é pra dar bengaladas - com a panache e o sotaque de uma varina brigando na rua.


Esse texto pertence ao blogue do Alexandre Soares Silva. Para ser sincero, um dos blogues melhor escritos da blogoesfera lusófona. Acho que ele é escritor. Nota-se bem porquê.

Este texto mostra, com grande beleza, o insulto à portuguesa. É bem, não é?



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